5.1.08

PENSANDO PEQUENO
Cansado de tanto tentar articular idéias, sentou-se para escrever. Mas ainda faltava alguma coisa: talvez um copo d'água ou qualquer coisa da geladeira, qualquer coisa que não precisasse ser preparada. Afinal, não estava com todo esse tempo disponível. O cursor ficaria piscando na tela do computador, o computador no quarto, o quarto a alguns metros de distância da cozinha, a cozinha a alguns metros de distância do quarto. No quarto havia um computador ligado e na tela deste computador um cursor piscava como uma esposa que batia o pé com braços cruzados, esperando por alguma desculpa esfarrapada de seu marido. Pois era exatamente isso, o cursor era uma esposa esperando alguma resposta esfarrapada do pobre diabo que está indo à cozinha buscar algo para se refrescar neste calor não menos infernal do que seu pequeno caráter de homem de letras, cujo trabalho, muitas vezes edificante e algumas outras hipócrita, vem lhe rendendo umas boas centenas de dinheiros por mês. Lá vai o pobre diabo com um fio de ética lhe empurrando pela goela abaixo várias variações de uma mesma questão: dia após dia, página após página, argumento após argumento, copo d'água após copo d'água, pulsa a pergunta que coça atrás da orelha: dá mesmo para confiar nisso tudo que minhas mãos despejam no teclado?, nisso tudo que quer edificar, nisso tudo que deveria ser defendido com a vida, as idéias que redimem os povos? Você já deve ter sentido isso, o sabor da ética é maravilhoso, o que arde é o empurrão. Lá vem o nosso escravo voltando da cozinha, então também voltemos nós, voltemos a tentar começar pelo princípio, os dois segundos em que ninguém ouviu um verbo conjugado na primeira pessoa singular do pretérito perfeito do indicativo ser derramado com o sabor azedo dos perdões pedidos à ética:

Cansei... por hoje chega de articular idéias. Talvez eu escreva alguma coisa para me descarregar. Alguma coisa às portas do inferno, este inferno que é o verão, tão brasileiro. Abandonai qualquer esperança, vós que entrais! Enquanto eu vou à cozinha, buscar algo para amenizar esta sauna, o cursor que permaneça aí, piscando e piscando na página em branco, a página em branco na tela do computador, o computador no quarto, o quarto na casa, a casa nas minhas férias, as férias em Valença, Valença no Rio de Janeiro, o Rio de Janeiro no Brasil, o Brasil no Terceiro Mundo, o Terceiro Mundo que deve começar a surgir daqui a alguns minutos na tela do computador, o computador no quarto, o quarto a alguns metros da cozinha. O cursor intermite como o pé de uma esposa de braços cruzados, uma esposa que cobra alguma explicação do marido, uma explicação certamente ridícula. Tudo bem, eu vou falar, mas antes vou buscar água. No caminho, cantarolando Parque industrial, detenho os passos para procurar algum fio de vida no meu cachorro. Faço isso há algum tempo, desde que encontrei nossa cadela morta com uma baba verde aos pés do coqueiro do quintal. Era um domingo frio de julho, eu voltava razoavelmente satisfeito de um campeonato de futebol de botão, preso em meus pensamentos pequenos de quem tem quinze anos e vive em Valença, se é que em algum lugar os quinze anos de alguém permitem que se pense grandemente. O peito encardido do cachorro sobe e desce. Então me voilá, cursor intermitente. Abandona qualquer esperança, tu que entras, e deleita-te com os pensamentos pequenos de um futuro working class hero do Terceiro Mundo:

Je veux, pour composer chastement mes églogues,
Coucher auprès du ciel, comme les astrologues,
Et, voisin des clochers, écouter en rêvant
Leurs hymnes solennels emportés par le vent.

(Charles Baudelaire, "Paysage")

Até pouco tempo atrás, houve uma fome.

O éruma-vez desta vez foi uma vez em São Paulo, às oito e tantas da noite de um sábado de inverno. José sozinhava seus dramas, resignando-se à sua minusculidade naquela que era a biggest city of South America. Com ele ia indo tudo azul naquele ponto de ônibus, aquele que fica em frente à estação de metrô do Tietê. Alguém que conhecesse este ponto de ônibus diria que não, que não é em frente, que é quase embaixo, mas que também é do lado, entende? Tão afeito a mapas e a localizações, José murchou ainda mais os ombros ao constatar que seu único amigo disponível naquele momento, o sol, não poderia lhe dizer para onde é que aquele metrô estava indo, se para o sul ou para o oeste, aqueles pontos cardeais, nem se estava indo para a parte rica ou para a parte pobre da cidade, aqueles pontos desiguais, pois já não havia mais sol: já eram oito e tantas da noite, você se lembra? Naquele instante, o sol já estaria chegando ao Japão? Uma situação estranha, em se tratando de São Paulo e de sua quase chinesa de tão incontável população japônica. Se é para ir ao Japão, ou a qualquer outro lugar do mundo, que fique em São Paulo, esta que é a maior das cidades.

E eram essas, além de tantas outras menos recordáveis, as pequenezas de que José vinha se ocupando no momento, apenas comparável em infertilidade àqueles minutos em que tropeçava nas propagandas do tal Método Kumon de Matemática, enquanto devorava as historietas da Turma da Mônica, isso lá pelos seus sete ou oito anos de idade. Eram propagandas muito orgulhosas de seus produtos: calculadoras de olhos puxados, veja só que maravilha. José se perguntava se eu precisava ser do, fazer, entrar para, não sei nem que verbo usar, enfim, adotar o Método Kumon como método definitivo para manjar mais de matemática e de qualquer outra coisa que lá se transformasse em equacionice, enfim, essas práticas que ele ignorava com o desinteresse típico de quem acha muito mais construtivo ler a próxima história do Chico Bento ou explorar as características do cubo e do triângulo através dos lápis de cor.

Mas voltemos a José e à sua solitária e pouco redentora aventura no seu ponto de ônibus paulistano preferido. Porque ponto de ônibus é sempre uma aventura para José. Além de pensador mediano, satisfatório seguidor de intelectuais de esquerda, José quase é também um Pedro Pedreiro da era do MP3. E é por isso, pelas obrigações acadêmicas e por uma leve tendência aos ensimesmamentos de sábado à noite, que José se apavorou, no sentido regozijante da palavra, com aquele barulho insistente e rugoso e perfurante de motor e de pneu e de asfalto e de sábado que ecoava como deuses gregos de Hollywood em meio às colunas que sustentam a estação de metrô do Tietê, fazendo par romântico com um céu que queria a todo custo ter cor roxa mas que parecia ser cinza, além de carregar, bem lá no fundo, uma incerta essência alaranjada. Já se passaram vários meses e eu até hoje não sei se aquela era a real cor da poluição ou se é a minha memória que está escolhendo tudo isso para compor a história de nosso nobre sub-kafkiano working class hero to be.

Iluminado a sessenta quilômetros por hora pelos faróis que ignoravam o seu pavor diante desta cena, José pensava em um pequeno poema que havia imaginado doze meses antes, ao passar pelo mesmíssimo lugar, em um mesmíssimo sábado. O poema, que viria a ser escrito alguns dias depois do seu desvirginamento paulistano, passou muito longe do idealizado. O poema, não se esqueça de que ele ficou muito longe do idealizado, não cantava nada parecido com este presente peso, que doía feito uma fome de pão. Ele tentava cantar os últimos postes acesos na madrugada, luzes vistas através das cortinas do ônibus na primeira vez em que nosso José chegava à terra dos de Andrades de 1922. Nos seus quase primeiros minutos em São Paulo, ainda dentro do ônibus, conforme já dissemos, naqueles poucos minutos antes de pregar o seu primeiro pé no primeiro chão da rodoviária, com cortinas fechadas, eu disse "pregar" porque ele não quis mais despregar os pés deste chão imundo, nos seus quase primeiros minutos em São Paulo, José mordiscava a própria língua, louco para abrir as cortinas e ver quem eram, afinal, os putos arqueiros que lançavam tantas flechas de luz através das cortinas fechadas, mas estava, ao mesmo tempo, não muito louco para abrir as cortinas, pois estava embasbacado, encantado pelas luzes, pelas flechas, e neste sábado de céu laranja José se lembrou daquele poema terrível, que ficou anos-luz aquém do idealizado, não se esqueça, caso você tropece nestes versos em algum lugar no caminho do purgatório, porque seu pavor nesta nesta noite de motor e céu roxo era bom, você se lembra disso?, José se encantou com aquelas colunas gigantescas, com aquele barulho gordo e com aquele céu cinza imundo.

Ainda durante algum tempo, coisa de semanas ou meses, nosso José alimentou a vontade de se tornar um monstro nojento, um rato da mais baixa cretinagem, digno do virulento trabalho de roer toda aquela frieza de concreto, sedento de esgoto, com vontade de sentir o vento gelado que sobe do Tietê jogar em seu rosto todas as guimbas de cigarro e os chicletes amassados no chão e fazer disso tudo poesia e poeira e, por que não?, José teve vontade de enfiar no bolso um pouco do dinheiro que circula na Avenida Paulista. O pobre coitado ainda se iludia com essas imagens de helicóptero da Globo, com essas fotos de livro de Geografia do Ensino Médio e com os desvios naturais, típicos das mentes provincianas que vêem notícias sobre crimes no metrô de São Paulo, desvios que sempre gotejam frases como "São Paulo tem metrô".

Num outro dia, em outro plano de compreensão, José reescreveu aquele poema, mas esse eu não li. Por bastante tempo, e hoje parece que isso já vinha desde muito antes de ir pela primeira vez a São Paulo, e eu sei que José acha isso porque ele me disse, por bastante tempo bastante tempo nosso herói, o José, José viu a cidade como tradução da potência do homo sapiens diante da natureza, mas sem essas palavras bonitas e elevadas que desenvolvemos depois de meias dúzias de livros europeus: tradução, potência, homo sapiens. Poucas coisas materiais do mundo material tiveram mais placência e vigor impulsivo do que aquela concentração de concreto, motor e fumaça. Coitado de mim.
Postado por João às 00:33
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28.12.07

O CACHORRO


Naquele dia, ou melhor, naquela noite, os primeiros minutos de 25 de dezembro, enquanto Jesus Cristo nascia no Vaticano, a Rita não pôde aparecer na internet. Fiquei cansado de matar a madrugada no computador e fui escovar os dentes.

No meio do caminho, parei por alguns segundos. Detive os passos diante do meu cachorro, já tão velho e enfraquecido. Até encontrar algum movimento de pulmões sob seus pêlos encardidos, houve um vazio angustiado, um pedido quase desesperado: sobe! sobe! sobe, porra!, até que o corpo do meu velho e surdo fox paulistinha inflou e murchou, iniciando, agora sim, glória a Deus nas alturas, algum movimento ritmado, acompanhado de um curto resmungo. A visão demora a responder às freadas brucas do corpo: se não li isso em nenhum lugar, fui eu mesmo que inventei este aforismo nas minhas tão juizforanas filosofias de ponto de ônibus. Por isso afirmo que nossa visão é uma merda incompetente. E ainda gastamos dinheiro querendo ver outras galáxias.

Esse tipo de pedido doloroso por algum sinal de vida nos meus cachorros se tornou uma coisa comum, acredito, desde uma certa manhã de domingo de 1999, enquanto voltava de mais um campeonato de futebol de botão. Encontrei nossa cadela deitada ao pé do coqueiro, babando a gosma esverdeada da morte, a geléia que expulsou sua alma carente para algum lugar sob os pés de Krishna. Ela sempre me passou muita tristeza, mesmo quando se esfregava nas nossas canelas abanando o pouco de rabo preto que tinha. Nem mesmo morta ela perdeu aquele frágil olhar de súplica.

Se somássemos todo o tempo que passei procurando vida nos meus cachorros enquanto eles atravessavam os vales de Morfeu, você entenderia, ó leitor, olhando desde fora, a lenta dor rolo-compressora da criança que não vê a vida (já esvaída) de seu adorável companheiro, seja ele cachorro, peixe, iguana ou amigo invisível, pobre perda daquele que não argumenta contrariamente, que não lhe aponta o dedo em riste e te lembra que há buracos no teto, que não se delicia com seus mais estúpidos minutos na frente do espelho, enquanto você pede por algum sinal de vida. Digo "você" porque eu ainda paro ao lado dos meus cachorros; eu diria "nós" se o assunto não fosse o cachorro aparentemente inerte, mas sim aqueles estúpidos minutos. Vez ou outra, é verdade, despertei os pobres coitados com algum movimento brusco e essas foram as vezes mais ridículas, em seu sentido mais ridículo, o de "risinho".

O cachorro está vivo, pois bem. Então escovei os dentes e me deitei.
Postado por João às 23:03
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24.12.07

AUSÊNCIA DECEMBRINA


E já faz alguns dias. Mesmo a cento e poucos quilômetros de distância, eu continuo me calando por causa dela. Não apenas por sua doce, imprescindível, rubra e hipnotizante tirania, mas porque sem ela pouco resta a ser dito, estes dias e noites de dezembro, tudo tão solitário e sem suas belezas. Ela?, ficar pensando e repensando nas nossas pendências?, nunca acredito muito nisso, ela deitada pensando, aplicando Báskara aos problemas possivelmentes, alguns deles tão pouco verossímeis que somente uma mente com resquícios idealistas como a de lovely Rita poderia enxergar debaixo de uma semana passada embaixo do nosso estreito edredom verde e amarelo quadriculado, aquele que mal nos cobre e no qual ela confessou ter derrubado uma pelotona de sorvete e pegou rápido e enfiou na boca e depois riu um pouquinho porque eu estava do seu lado e ela achou que eu iria brigar. Lembre-se que eu já tenho vinte e três anos e não mais me irrito com sua pouca habilidade com talheres, apesar de ainda me tirar do sério o seu descaso com os panos de prato. E eu me bato por não ter visto nada da história do sorvete, saiba que eu queria ter visto isso para poder me desmontar mais um pouco sob você e para abrir, alguns dias depois e a uns cento e poucos quilômetros de distância, um sorriso do tamanho das montanhas que agora nos separam nessa época de ceia, presente, presépio e lei frouxa. Nessas ausências, tão minhas que eu me desespero apenas lembrando, eu me engulo e me deito olhando pela janela, perdendo a vista em meio aos faróis dos carros que se denunciam e pela janelas das casas lá no alto, provavelmente também esperando que o bom humor de gelatina da Rita permaneça bom. Eu sempre te desculparei pelos problemas que você amplia, é claro que eu vou te desculpar. Parece coisa das noites em que eu estou dormindo por aí, as árvores dos quintais vizinhos criando sombras de gárgulas e dráculas no vidro enquanto os vizinhos, não os dos quintais, mas os de prédio, nada fazem além de papear. E eu deitado, com a cara virada para a janela, olhando a luz lá fora, pedindo que
_________ Rudá, Rudá!...
_________ Tu que secas as chuvas,

a Rita sabe muito bem que é ela a minha marvada, minha chère indolente. O que ela não deve saber é que eu sempre me esforcei para ler Le serpent qui danse sem me influenciar por Serge Gainsbourg. Quando o ouvi pela primeira vez, Baudelaire era, para mim, L'horloge e mais umas meias dúzias de poemas. Quando ouvi a tal versão de Gainsbourg, algum tempo depois de a Rita ter arrombado a minha porta vestida de amarelo, cor que sempre detestei mas que nela fica uma coisa assim meio "um girassol da cor de seu cabelo", depois disso Baudelaire se tornou o máximo e a Rita sabe disso. "Ainda moro nesta mesma rua". Descobri através da voz de Gainsbourg que o corpo de Rita se penche et s'allonge
_________ Comme un fin vaisseau
_________ Qui roule bord sur bord et plonge
_________ Ses vergues dans l'eau.

E nessa época eu achava o máximo reconhecer avons-nous donc commis une action étrange? Explique, si tu peux, mon trouble et mon effroi em Je vous salue, Marie, filme que é menos difícil do que parece e que me encanta pelo seu estúpido marasmo. "Eu vos saúdo, Maria", pobre tradução, e eu te ensinei que era "Ave Maria". Então a Rita não sabia, talvez ela nem gostasse de saber, ela é minha sixties' Jane Birkin, minha eighties' Juliette Binoche. Li em algum lugar da internet que Gainsbourg estava sentado no hall de um hotel e Jane Birkin derrubava as paredes da Sistina, uma a uma, simplesmente descendo os não sei quantos degraus da escada. Assim babara Gainsbourg, assim babo eu com o andar de minha Rita, que na época já era mais ou menos minha e que derrubou os vidros, os caixas eletrônicos, os clientes, você derrubou aquela agência do Banco do Brasil, sua destruidora. Foi meio assim como naquele dia, eu fiquei te olhando e você era um nome, você era só uma pessoa legal, um nome ainda minúsculo, alguém. Nós ainda não sabíamos que você estava passando de alguma para alguém, de uma para a, de ela para você, ou seja, você ainda não era tudo o que você é hoje, algumas dezenas de meses depois. Você começava a deixar de estar na terceira pessoa. E eu fiquei te olhando. Aquele dia do banco. Eu repito esta história quantas vezes forem necessárias porque foi assim, foi o desabrochar de ei-la, eis ela e depois você, a única. Uma outra vez, quando andamos o dia inteiro e você se enquietou, você engoliu as palavras para engolir também a dor nos pés, cada passo que você dava era uma agulha se enfiando no peito do seu pé e era maravilhoso ver que você admirava a curva da Rua dos Franceses como quem adivinhasse a palmeira no deserto. E fiquei te observando, a rua em declive se transformava na escada de Jane Birkin. Aí está. La voilà. Ei-la que não sai de onde se enfiou: meu todo esburacado. Pois saiba, você, que ele se descobriu assim quando você se enfiou nele. E ela me afoga, me sufoca, me aperta e me desmonta. Eu não sei se luto para me desafogar de Rita. Porque a Rita tem suas cretinices mais absurdas e, por isso mesmo, elas são as mais deslumbrantes, like a ball and chain.
Postado por João às 23:46
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28.10.07

SILÊNCIO
E hoje, só as fotos dela no mural, já fazia um tempo que eu não tinha a Rita aqui, ela deve estar no trigésimo quinto sono e eu aqui, pensando nas nossas tortuosidades, acreditando que ela está sendo nanada pelos meus bons eflúvios, minhas good vibrations, pelo pensamento positivo. Dorme, pombinha. Cortázar diz tudo, e disse inclusive que depois do capítulo 68 vem o capítulo 9, e é assim que tem que ser. O 9 é aquele em que a Maga não está entendendo porcaria nenhuma e chega mais perto do Horacio.

- Etcétera - dijo Oliveira, malhumorado -. Hablando de los sentidos, el de ustedes parece un diálogo de sordos. La Maga se apretó todavía más contra él. "Ahora ésta va a decir alguna de sus burradas", pensó Oliveira. "Necesita frotarse primero, decidirse epidérmicamente." Sintió una especie de ternura rencorosa, algo tan contradictorio que debía ser la verdad misma.

A Rita já leu isso, mas não deve se lembrar. Não importa, quem é que solta as borrachadas depois da coisa toda sou eu. E foi assim, depois de uma hora de coisas que preciso sentir novamente para então perguntar à Rita se eu posso falar como é que são, que comecei um adjetivadíssimo discurso sobre a censura e seus tentáculos. Às vezes eu acho que a imagem é menos deprimente do que assustadora. A lâmina não corta apenas a língua, mas pega mais para baixo, no pescoço. Quando eu penso nas guilhotinas parisienses ou nos matadouros de bois e frangos, ou então nas facas enferrujadas com que os invasores ocidentais ou ocidentalizados, como jornalistas coreanos, são degolados no Oriente Médio, eu sinto como se todas fragilidades mentais e físicas do homem estivessem num jogo de espelhos, embora não saibamos, nem eu nem você nem estas mesmas fragilidades, quem é que está do lado de cá, quem é que pode dar um passo atrás e fazer parar essa porra toda. A cabeça não sai voando sozinha, é óbvio, e seria até engraçado ver uma cabeça pipocando assim, puque!, sem mais nem menos, mas não é assim, sempre tem alguém controlando o espetáculo da garganta dilacerada. Ver alguém perdendo a cabeça dói no saco, cara. Nem cena de tiro na cabeça me derruba, como aquela da garota sendo apagada no Tropa de Elite. Porque é filme, coisa e tal, e a menina vai aparecer em alguma novela daqui a algum tempo. Teve uma vez, na casa do meu primo, meu estômago embrulhou e eu fiquei desidratado, meio tonto, até um pouco catatônico, vi o vídeo de um gordo com cara de gordo americano sendo degolado por uns encapuzados árabes. E eu sempre me achei o fodão, o fodão que permanece impassível diante dessas coisas, mesmo tendo, lá nos fundões da memória adolescente, uma palestra de escola pública sobre aborto que me fez sair da sala tropeçando em todo mundo que teimava em aparecer no meu caminho. A única coisa razoavelmente boa daquela palestra foi a interferência dos fractais dietilamídicos que a tontura provocou nos meus já míopes processos de codificação da luz. Ou decodificação? Pois bem, eu era idiota e achava que a forma se despe do conteúdo assim, num puque!, e lá estão o avião se esplatifando contra a torre gêmea. Hoje eu sou menos idiota, e me sinto bem mais confortável pensando que o fogo das explosões em Nova Iorque é bonito na medida em que revela a "fragilidade do sistema capitalista". Alguma coisa assim. Milhares de mortos à parte, vamos pensar no desabrochar das idéias. Não foi com essas palavras nem com essa seriedade toda, mas um dia desses fui mais ou menos acusado de não saber pesar os impactos psicológicos da ditadura. Só porque eu não achei aquele O ano em que meus pais saíram de férias lá essas coisas todas. O menino é bem fraco. E olha, só a primeira cena de Tropa de Elite já põe esse filme literalmente no microondas. Tudo bem, eu sei que eu não vivi sob decretos de censura. Às vezes, nos meus lampejos heróicos, como aqueles que se agitam em mim quando leio algum trecho de Macunaíma ou quando me lembro do Gabeira esculachando o Severino ou quando vejo as mais límpidas manifestações da dialética ou quando a Jade Barbosa ganhou ouro no Pan, sabe?, Gigante pela própria natureza, / És belo, és forte, impávido colosso, quando temos vontade de sair de nossos pequenos burgos encadernados e ir para as ruas gritando gritos que chamam as rimas mais forçadas com aquele lindíssimo "um, dois, três, quatro cinco mil", essa progressão maravilhosa, existe algo mais adequado para caracterizar o "vem, vamos embora, que esperar não é saber", a marcha dos cento e tantos milhões? Eu, duvido. Meu deus, desliga essa essa televisão. Eu detesto novela das seis. Se bem que na próxima vai ter a Letícia Sabatella. Às vezes, quando eu me acometo destes lampejos heróicos, eu acho que sou capaz, sim, de emitir julgamento a respeito destes eventos. Aliás, meu deus, nos últimos cinco anos, eu tenho vivido dentro de uma instituição pública, um dos locais em que a mais nojenta burocracia, resquício do Estado ditatorial...

- Ai, pára com essa porra toda e me deixa prestar atenção ali.

Já ouvi, mais de dez vezes, a história dos versos de Camões impressos no lugar das notícias censuradas pelos generais da vida. Camões é uma bela escolha, vês aqui a grande máquina do Mundo, etérea e elemental, que fabricada assi foi do Saber, alto e profundo, que é sem princípio e meta limitada. Quem cerca em derredor este rotundo globo e sua superfícia tão limada, é Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, que a tanto o engenho humano não se estende. A censura a que estamos expostos, nós, os "jovens", só não é mais terrível do que aquela que sofreram nossos pais, eu digo os pais da nossa geração, porque os porões do DOPS, que fim levaram? Eu bem sei que, na superfície, estou pensando besteira. O que quero dizer é que a coisa não é mais institucionalizada. Eu tenho uma revista que traz uma matéria sobre o livro do Bob Dylan e, intelectualizada que é, a revista também coloca a questão da liderança através da indústria cultural, mais especificamente a música pop - daí a ligação com o Bob. Ah, foi você quem me deu essa revista, você aí usando a novela das seis para recolher o que a gente esparramou. Você fica meio quieta, com esse nariz pontudo, com esse pezinho de sabão, e essa mania de se enfiar debaixo do lençol. Que merda, você parece a Sara do Bob Dylan, já que estamos falando nele, Sara, Sara, so easy to look at, so hard to define. Eu sempre pensei sobre isso, mas de forma mais orgânica, pouco analítica. Minha raiva do papel centralizador dos vocalistas das bandas, por exemplo. Talvez pela minha formação musical (qual mesmo?), eu sou levado a defender a "cozinha". Lembro que, quando morreram os Mamonas Assassinas, minha mãe falou ele era tão legal. "Ele" quem, porra? Por que é que o vocalista tem que falar mais? É por isso que eu gosto do Cream. Mas voltando à revista, na capa da matéria sobre a liderança tem uma foto do público de uma rave "na selva, próxima a Manaus". "Quem é o líder deles?", pergunta-se o autor do texto. Um dia desses, eu estava em uma aula e não-me-pergunte-como também surgiu esta questão. Não me lembro, a aula era de manhã e você sabe como eu demoro algumas horas para me tornar gente. E as minhas tendências the times they are a-changin', segundo Bob. E foi aí que me lembrei da tal matéria de revista. Então foi você quem me deu essa revista. Sem saber, você estava me dando essa revista porque na página trinta e três tem uma foto do Bob sentado numa cama com as pernas abertas e você adora aquelas botas que ele está usando. E já faz mais de um ano que você quer que eu me compre uma bota daquelas. Você ainda me paga. Coitados dos pássaros que ficaram expostos à tal rave em Manaus. Dizem que os primeiros a sentir os impactos do aquecimento global são os animais livres. Isso tem uma coerência inquestionável, e só a nuvem de pernilongos que invade nossa casa, dia após dia, já é suficiente para afirmar que o bicho anda pegando por aqui, que a coisa já tá pegando nos bichos. Nestes momentos em que você abre a boca e me manda parar com essa porra toda, eu tenho vontade de responder à altura. Quando você me torra a paciência, e isso já aconteceu umas quantas vezes?, eu enchi o saco umas cinco vezes mais. Que nem quando você fala de algum cara bonito da televisão ou de algum cara que passa nessas calçadas por onde você provoca aquele arrastão, pois você anda assim, derrubando prédios e desintegrando os cartazes, aqueles mesmos que eu às vezes fico gostando de rabiscar com marcador vermelho de retroprojetor. Você não vê isso, e disso você sabe muito bem. Nestes momentos em que você me manda calar a boca, quando você fala de algum cara bonito, eu respondo muito mais agressivamente, falando de uma gostosinha qualquer da vida. Porque nesse teu jeito durão tem uma coisa extremamente mole. Eu bato para depois acolher, e nisso de fazer papel de esculachada, você, sua Rita de meia-tigela, você é a melhor. É por isso que eu te provoco. Você faz aquela cara de preterida, e você sabe que não, que não. Na cabeceira da nossa cama de solteiro sempre tem algum par de brincos. Você sempre enfia o despertador na gaveta do criado-mudo, tic-tac não é contigo, você prefere o tac-tac, você fica batendo em mim, tac-tac-tac-tac, você fica batendo e aos poucos me desmonta. Na mesa do outro lado da cama, sempre tem um cantinho para você botar o copo d'água que eu detesto que você ponha no criado-mudo, pois mancha a madeira, você sabe disso. Me diz, isso é ser preterida? Eu calo a minha boca para você ver essa porcaria de novela. Às vezes eu arrumo a casa, e você vem aqui para bagunçar tudo. E é mesmo tudo culpa tua. Antes de você, antes daquele encontro no banco e antes daquela pré-madrugada no ponto de ônibus, antes de Violeta Parra, de Adriana Lisboa, de ai, meu amor para sempre, nunca me conceda descansar, antes dessa aluvião todo, eu tinha um mundo desarranjado, que não precisava ser arranjado. Agora, eu nem tenho mais mundo algum. Você pode falar o que quiser, ou seja, as mais putas, as mais parideiras, elas são vênus na tua boca. Assim você me faz calar a boca, me faz parar com essa porra toda. Porque você me derruba junto com os prédios, entende?, eu calo minha boca por tua causa.
Postado por João às 00:40
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perfil
o quê: não sei.
quem: joão maní farjia.
onde: terceiro mundo.
como: com a cabeça no travesseiro, em pré-madrugadas no telefone, nos pontos de ônibus, nas travessias.
quando: às vezes.
por quê: subusos do "direito permanente à pesquisa estética".
quantos: vinte e três.



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